Continuação...
Digressão sobre o vazio.
Sou eu quem não é capaz de desejar ou o mundo se tornou indesejável?
Eu estou completamente desanimado do trabalho, ele perdeu o propósito.
Percebo falsidades, que em si não são ruins, só não valem a pena. É um baile de máscaras, onde os convidados são obrigados a utilizar a máscara que o anfitrião escolheu.
Sorriso sempre.
Acolhimento sempre.
Bom humor sempre.
É uma família, eles dizem. Eu digo:
Família é o cacete, se fosse meu primo eu poderia encher ele de porrada.
Os ambientes estão todos assim, em cada baile, uma máscara é escolhida e é de uso obrigatório.
Para ser aceito preciso de carro, dinheiro, festas…
As festas são coloridas. E a natureza avisa: colorido? É Veneno.
E as festas são as únicas coisas coloridas.
Se eu tirasse uma foto da varanda da minha casa e colocasse aqui, você ia ver. É tudo feio, mal construído, quadrado.
Na minha rua, todos os carros, todos mesmo, são brancos, pretos ou cinzas.
As cores tem morrido. Já reparou que os tons pastéis estão por todo lugar?
Tudo meio… morto.
Há um contraste interessante: o colorido é venenoso, mas o não-colorido não parece atraente.
Por isso me vivo me questionando.
É um defeito meu ou da sociedade que construímos?
Nunca esperei que o mundo fosse um arco-íris. Mas nunca pensei que se tornaria um programa de TV dos anos 30.
Chagamos na verdadeira idade das trevas.
A única vantagem desse cinzeiral todo é o renascimento, mas quem é a fênix?
Pode ser um defeito, de fato pode.
É que vejo o básico como obrigação do extraordinário. E eu não tenho muita intenção de ser extraordinário kkkkkk…
E odeio obrigação.
Disso, parece que todo mundo padece um pouco.
Mas é exigido o extraordinário como o mínimo. E o mínimo nem é levado em conta.
Esse é o paradoxo: o mínimo era pra ser o suficiente.
Dinheiro? Mansão?… Carreira? Sucesso?
Foda-se.
É tudo vazio. É tudo…
‘Sabor’ vida perfeita.
“Você não terá nada e será feliz...”
Caí nessa ladainha por osmose. Eu quero ter alguma coisa, mas porque sou alguém.
Eu quero ter família, espiritualidade, amigos fiéis, viver de escrita, e tudo isso exige que eu seja alguém.
Ser é o que traz tudo ao centro. Ter é o que tem me evaporado.
O trabalho tem me ajudado a ter, não a ser. A lógica funciona, mas a conta não fecha.
É como calcular o tamanho de uma pedra ao invés de observá-la.
O golpe ta ai, cai quem quer. Eu quis.
E nem me toquei.
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