Ivan Ilitch é mais moderno do que parece.
A dicotomia entre trabalho e satisfação.
Há uma frase em A morte de Ivan Ilitch que parece pequena, mas contém uma autópsia inteira do trabalho moderno:
“Tal era o conselheiro privado Iliá Iefímovitch Golovin, funcionário inútil de diversas repartições desnecessárias.”
Tolstói não está apenas zombando de um cargo burocrático. Está desmontando uma categoria de vida. O funcionário inútil não é inútil porque não faz nada. Pode ser até que, pelo contrário, ele faça demais. Cumpre os protocolos, respeita as hierarquias, assina papéis, produz relatórios, responde mensagens, sustenta reuniões e considera estar trabalhando seriamente.
A inutilidade está em outro lugar: no fato de que toda essa atividade não toca a vida real. O trabalho não dignifica, não engrandece.
Vive-se uma vida pragmatizada. Que carrega um crachá, mesa, procedimento e reconhecimento institucional. O sujeito até que trabalha bem. Ele está perfeitamente integrado à máquina, que talvez não precise dele como pessoa, apenas como um peão de xadrez.
O peão, para suportar a própria condição, precisa substituir alguns termos:
Ele não diz “estou sendo modelado”; diz “estou amadurecendo profissionalmente”. Não diz “estou obedecendo ao gosto dos superiores”; diz “estou cumprindo meu dever”. Não diz “minha personalidade está sendo aparada até caber no cargo”; diz “estou aprendendo postura”…
Tolstói nos revela essa condição através de Ivan Ilitch. Na faculdade, ele já era “um severo cumpridor daquilo que considerava seu dever”; mas o detalhe decisivo vem logo depois:
“Na faculdade, ele [Ivan Ilitch] já era aquilo que seria no decorrer de toda a existência: um homem capaz, alegre, bonachão, comunicativo, mas um severo cumpridor daquilo que considerava seu dever; e considerava como seu dever tudo aquilo que consideravam como tal as pessoas mais altamente colocadas.” - Tolstói.
A frase é irônica porque parece elogio antes de revelar a verdade.
Ivan era capaz, alegre, comunicativo, decente… Era competente. O seu defeito nascia por um exagero de decência: ele aprendeu a chamar de consciência aquilo que vinha da alta classe.
Me acompanhe para mais interpretações literárias.
O trabalho precisa de dever.
Sem dever, nada se sustenta. Ninguém cumpre horário, ninguém entrega o combinado, ninguém respeita o outro, ninguém suporta a parte inevitavelmente difícil de qualquer ofício.
O questão começa quando a palavra “dever” deixa de nomear uma responsabilidade real e passa a nomear apenas adaptação à hierarquia. Ivan Ilitch não pergunta se “isto é justo?” ou se “isto é necessário?”, a pergunta dele é outra, embora nunca formulada com clareza: “o que as pessoas da alta classe esperam que eu considere correto?”.
E, uma vez descoberta a resposta, ele a incorpora como se fosse convicção própria.
Esse é um autoengano muito atual. O trabalhador moderno raramente diz “estou tentando agradar gente mais importante do que eu”. Ele diz “sou profissional”.
A empresa oferece um vocabulário e o funcionário se encarrega de acreditar nele. A troca de palavras é quase sempre assim: a submissão vem vestida de virtude. O medo aparece com roupa de maturidade. A obediência aparece com crachá de responsabilidade. A deformação aparece como treinamento.
O sujeito não sente que está se perdendo, porque aprendeu a narrar a própria perda com palavras socialmente elogiáveis.
Tolstói percebe isso com precisão cirúrgica. Ivan Ilitch não é corrompido de uma vez, é ajustado aos poucos. Sua ambição não parece grosseira, porque se confunde com decência. Sua vaidade não parece vaidade, porque se confunde com carreira. Sua falta de interioridade não parece falta de interioridade, porque se confunde com bom senso social. Ele não precisa ser forçado a entrar na forma. Ele aprende a desejar a forma.
E talvez seja esse o ponto mais desconfortável: há trabalhos que não apenas exigem nossa mão de obra:
Exigem que passemos a admirar a personalidade que eles fabricam em nós.
O funcionário perfeito é aquele que desaparece do próprio trabalho
Em outro trecho, Tolstói diz que Ivan Ilitch, como juiz, era capaz de separar as obrigações funcionais da vida particular:
“No desempenho da função de juíz, Ivan Ilitch era igualmente comme in fault, decente, capaz de separar as obrigações funcionais e a vida particular, […]”
A princípio, isso parece virtude. E, em algum grau, é mesmo. Um juiz não deveria transformar o magistrado em palco dos próprios humores. Um profissional precisa saber distinguir o que pertence à função e o que pertence à sua vida privada.
Mas Tolstói não está apenas elogiando essa separação, percebe como a palavra “decência” aparece novamente.
Isso revela o apego à opinião alheia. Ivan queria que os altamente colocados tivessem uma boa opinião sobre ele.
Em seguida, Tolstói também mostra como Ivan assimilou muito depressa os meios de afastar de si todas as circunstâncias estranhas e enquadrar os casos mais complicados numa forma em que aparecessem no papel de modo exato, excluindo todo ponto de vista pessoal e cumprindo todas as formalidades exigidas:
“Quanto ao serviço propriamente dito, isto é, aos processos de instrução, Ivan Ilitch assimilou muito depressa os meios de afastar de si todas as circunstâncias estranhas, bem como os de enquadrar mesmo os casos mais complicados numa forma graças à qual se apresentassem no papel apenas exatamente, excuído de todo o ponto de vista pessoal de Ivan Ilitch e, sobretudo, se cumprissem todas as formalidades exigidas.”
Aqui aparece a genialidade da crítica.
Ivan se torna excelente em transformar a realidade em forma. O caso concreto, com sua confusão humana, sua dor, suas contradições e sua densidade, precisa caber no papel. E, para caber no papel, deve perder aquilo que atrapalha a formalidade.
O mundo vivo entra no sistema; o sistema devolve um documento.
Não é difícil reconhecer isso hoje. Em muitas empresas, o trabalhador não é treinado para compreender melhor o real, mas para traduzi-lo em linguagem aceitável pela instituição.
O cliente insatisfeito vira “demanda”. A exploração vira “alta performance”. O esgotamento vira “dificuldade de adaptação”. O medo de demissão vira “senso de dono”. A ausência de sentido vira “desafio”. A humilhação educada vira “feedback”.
Tudo precisa caber na forma. Tudo precisa ser dito de um jeito que não ameace a máquina.
O resultado é uma espécie de desaparecimento. O funcionário perfeito é aquele que já não atrapalha o funcionamento com excesso de pessoa.
Ele sabe o que deve sentir, como deve responder, que palavras deve usar, que expressões deve evitar, onde deve sorrir, quando deve agradecer, como deve transformar abuso em oportunidade. Não é que ele não exista. Ele existe cada vez menos no lugar onde passa a maior parte da vida.
Essa é uma das violências mais sutis do trabalho contemporâneo: não basta trabalhar. É preciso performar uma versão institucionalmente aceitável de si mesmo.
O sujeito precisa ser competente, mas não incômodo; criativo, mas não desobediente; comunicativo, mas não excessivamente sincero; proativo, mas não livre; humano, desde que sua humanidade não atrapalhe o fluxo.
Ivan Ilitch é moderno justamente por isso. Ele não é só um burocrata russo do século XIX. Ele é o antepassado espiritual do profissional que sabe preencher todas as planilhas da alma.
O homem que aprende a excluir o ponto de vista pessoal até do próprio sofrimento.
O homem que chama de equilíbrio aquilo que talvez seja apenas afastamento de si.
Conclusão
O trabalho dignifica quando permite que uma pessoa transforme habilidade, atenção e esforço em algo reconhecível no mundo.
Mas o trabalho se torna deformante quando exige, como preço de permanência, a falsificação das palavras. A pessoa continua dizendo “dever”, mas quer dizer medo. Continua dizendo “profissionalismo”, mas quer dizer adaptação. Continua dizendo “resiliência”, mas quer dizer suportar o insuportável sem atrapalhar a empresa.
Tolstói não nos entrega Ivan Ilitch como exceção. Ele nos entrega Ivan Ilitch como aviso. Uma vida pode parecer correta por fora e estar inteiramente desviada por dentro.
Um homem pode cumprir todas as formalidades exigidas e, ainda assim, não cumprir nenhuma exigência profunda da própria existência. Pode ser capaz, decente, comunicativo, funcional — e, ao mesmo tempo, viver de palavras emprestadas.
Talvez a pergunta mais dura, diante disso, não seja se trabalhamos muito ou pouco.
Talvez seja outra: que palavras o trabalho nos ensinou a usar contra nós mesmos?
Porque o autoengano raramente começa com uma mentira escandalosa. Começa com uma palavra bonita no lugar errado.
E há poucas palavras mais perigosas, quando mal colocadas, do que “dever”.
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